domingo, março 16, 2008

Nélson Rodrigues, O Anjo Pornográfico.



"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”.Nélson Rodrigues.

As palavras acima revelam o homem Nélson Rodrigues por ele mesmo.
Anos depois Ruy Castro deu o título de Anjo Pornográfico à biografia do genial dramaturgo e delicioso cronista pernanbucano.

A minha iniciação aos livros deu-se à margem de Nélson Rodrigues. Sabia que o dramaturgo era considerado maldito, louco por futebol e só.

Assisti a "Vestido de Noiva" na tv , ainda adolescente. Confesso que achei muito estranho os sentimentos entre as duas irmãs e a tentativa de assassinato de Alaide, a noiva. Na verdade achei um horror!

Nélson era isso. Ele tirava todos os sentimentos "feios" debaixo do tapete e os jogava na cara da sociedade hipócrita. Sendo ele próprio um moralista, o que só depois descobri.

Na década de 90, Ruy Castro reuniu e publicou as crônicas de Nélson Rodrigues em alguns volumes. Foi paixão à primeira vista: o primeiro que li, me atraiu e me levou a mergulhar no universo "rodrigueano".

O cronista era ousado. Falava do Rio de Janeiro e dos seus habitantes, falava de política, de futebol e de amor. Brincava com alguns protagonistas da cena nacional como José Dirceu, na época um lindo líder estudantil, de Otto Lara Rezende a quem ofereceu a peça "Bonitinha mais Ordinária", de Chico Buarque e da sua rixa com o intelectual católico , Alceu Amoroso Lima.

De todos os volumes, o mais bonito na minha opinião é A Menina sem Estrelas, onde Nelson ternamente fala de sua filhinha, que nasceu cega.

Foi em "O Anjo Pornográfico", de Ruy Castro, todavia, que finalmente cheguei perto de entender Nelson Rodrigues, o menino que nasceu em Recife e veio com a família para o Rio, onde o seu pai lançou um jornal sensacionalista.

O homem Nelson Rodrigues, foi visitado pela tragédia desde muito cedo. Quando tinha 17 anos perdeu um irmão assassinado e logo depois o pai. Teve tuberculose e viu outro irmão morrer dessa doença na época incurável. Ainda perdeu Mário Filho, seu irmão que deu o nome ao Maracanã e toda a família de outro irmão, soterrada numa enchente no Rio de Janeiro.

Nélson reagiu à vida como pôde. Sua dor era vingada utilizando a hipocrisia da própria sociedade; chocando-a. Com lentes de aumento ele mostrava os desvios próprios dos seres humanos e matava a todos de constrangimento.

Eu conheci, amei e compreendi Nélson Rodrigues após a sua morte. No fundo um ressentido, um moralista, um menino assustado.

Ao mesmo tempo era um homem extremamente amoroso e romântico que dizia “que o verdadeiro amor não se assoa", exaltando a dor da cunhada, que chorava a perda do marido e não assoava o nariz.

Evelyne Furtado em 15 de março de 2008.

2 comentários:

Halem Souza disse...

Ainda não li a biografia escrita pelo Ruy Castro. E não sou um leitor profundo da obra de N. Rodrigues: não conheço seu lado cronista, só li suas peças (e gosto muito de Álbum de Família - da qual já falei no meu blog - e O beijo no asfalto).

Mas não aprecio o reacionarismo e certa visão preconceituosa que percebo na sua dramaturgia. Coisa de "menino assustado"? Não saberia dizer.

Um abraço.

Evelyne Furtado disse...

Oi, Halem!
Leia as crônicas e a biografia. Você conhece melhor o menino assutado. Vi Beijo no Asfalto no cinema e Bonitinha Mais Ordinária.
O homem é muito mais do que o seu discurso e é muito bom quando descobrimos isso.
Abraços e obrigada.