quarta-feira, junho 13, 2007

A Carta.




“Minha boníssima madrinha. Almejo ardentemente que estas minhas simples linhas, irão encontrar-lhe com toda prole em pleno estado de saúde”.

Assim, uma jovem de 20 anos, inicia sua amável carta. Acima, no lado direito da folha encontro as letras J.M.J e com ajuda da minha mãe, descubro tratarem-se das iniciais de Jesus, Maria e José, prática comum nas epistolas naquela época.

A gentil correspondência foi datada em 27 de setembro de 1934 e quem a escreveu relata à sua madrinha, os desencontros, as desilusões e as “ingrisias” do seu noivado, desculpando-se por aborrecer a destinatária com suas “tolices de moça”.

Imaginem que o noivo havia oferecido levar outra moça em seu cavalo para que esta se alistasse a votar nas eleições. Um rapaz que não é nomeado na missiva contara para a linda noiva (era linda mesmo) o sucedido e esta resolvera escrever ao amado “convidando-o” a terminar o noivado.

A carta que me chega às mãos tem um sabor especial.Através dela tenho contato com a maneira de viver naquela primeira metade do século passado, numa pequena cidade do interior do estado.

O voto feminino, por exemplo, era muito recente, mesmo aqui no Rio Grande do Norte, primeiro estado a estender o voto às mulheres, em 1928 e é interessante perceber que as duas senhoritas envolvidas naquele imbróglio amoroso estavam aptas a votar e exerciam seus direitos.

O alvo da disputa amorosa, o noivo, também parecia ser atuante politicamente, uma vez que ele as acompanhava nesse exercício da cidadania.

Chamou-me a atenção, também, que muito antes da Internet e até do telefone, naquela região onde o cavalo ainda era o meio de transportes mais usados, já havia quem fizesse o leva e traz entre os casais, ameaçando a felicidade destes.

Claro que não pude deixar de ficar triste com o aparente jogo duplo do noivo, que flertava com outra moça enquanto mantinha oficialmente o compromisso com a autora da carta. Como mulher, me identifiquei com esta noivinha decepcionada e brava, que chegou a ameaçá-lo com o rompimento sem mais “convite a desmanchar”, simplesmente devolvendo-lhe as cartas e “prompto”; ao que este reagiu dizendo que ela não deveria se impor; melhor seria pedir-lhe para que não voltasse a encontrar a outra moça, o pivô da delicada situação.

A carta tem um tom de suspense, pois a noiva avisava à confidente que já não acreditava mais nesse casamento e terminava gentilmente enviando lembranças a todos. Recomendava, também, para que rasgasse a cartinha após a leitura, pois não queria que esta chegasse às mãos de quem não a merecia lê-la.

Como vêm, o pedido acima não foi atendido, pois aqui estou 73 anos após, dando as minhas impressões sobre a correspondência que graças a Deus não foi rasgada.E o faço com alegria pela oportunidade de testemunhar os sentimentos de uma jovem mulher nos anos 30, escritos do próprio punho em letra bonita e texto limpo.

A alegria é ainda maior, pois conheci bem a autora da cartinha, que continuou bondosa, bonita e inteligente até a maturidade.Por fim, comemoro o bom desfecho do desentendimento entre aquele jovem casal, dos mais felizes que pude conhecer: meus avós paternos.

Evelyne Furtado, em 29 de maio de 2007.

7 comentários:

Halem Souza (Quelemém) disse...

Que bacana, Evelyne, ter junto de você esses "depósitos de memória" que só faltam falar (se bem que falam sim). Mais ainda emocionante porque, no seu caso, estão carregados de forte conteúdo afetivo.

E que texto bem amarrado, unindo história e vida privada: análise textual e sentimento. Muito bonito. Parabéns.

P.S. Vou recomendar a leitura dele no meu blog. Algum problema?

Evelyne Furtado disse...

Obrigada, halem!
Acho que consegui expressar o que essa cartinha significa para mim. É mágico ter em mãos as emoções de minha avó aos 20 anos.
Sua recomendação me fará muito bem!
Um abraço.

Halem Souza (Quelemém) disse...

Tudo OK, Evelyne.

laura disse...

Vequi
Adiro totalmente ao comentário anterior,de Halem, quando diz "texto bem amarrado, unindo história e vida privada: análise textual e sentimento" e para quem te conhece é fácil imaginar tuas próprias emoçoes ante as de tua avó na carta.
Eu também me emocionei muito,pq tua história me transportou à epoca quando minha avó Anita, às escondidas,hoje tenho certeza q por vergonha, pedia para a menina de 10 anos q eu era então, que lhe ensinasse a escrever...mas crianças são crueis, e acho q fiquei com uma dívida muito grande com ela.

Quanto ao moço solícito que avisou do serviço de cavalo-táxi q o noivo ía oferecer, suspeito q tinha razoes de particular interesse em desfazer o noivado! rs

Abraçao!

Evelyne Furtado disse...

Lindo, seu comentário, Laurita! Bem ao seu estilo. Eu adorei escrever esse textinho. E o melhor é que a carta de minha avó nos chegou há poucos anos através de uma descendente da madrinha a quem ela escreveu a carta e, ainda bem, não rasgou.
BEIJOS, LINDA!
p.s.Como não tenho agilidade para mexer com esse bloguito aqui, faço a Recomendação do Blog de Halem. Para você, professora e tradutora de português, é uma excelente fonte.

Claudete Shinohara disse...

Oi, Veca!
Adorei o seu texto em especial visualizar e até sentir as emoções contidas na história de seus avós paternos.
Parabéns pela maestria com que você esquadrinhou a carta.
Amo ler você!
Beijinhos

Evelyne Furtado disse...

Um cheiro pelo comentário carinhoso, Clau!
Obrigada, amiga!