segunda-feira, março 19, 2007

Nísia Floresta, Retrato de Mulher II

Evelyne Furtado
Especial para a GAZETA

‘Nísia Floresta Brasileira Augusta foi a mais notável mulher que a História do Rio Grande do Norte registra". Assim, Veríssimo de Melo inicia o capítulo dedicado a essa brilhante potiguar, em seu livro Patronos e Acadêmicos, sobre a Academia Norte-rio-grandense de Letras. Lendo sobre Nísia Floresta diria que sua notabilidade não está relacionada apenas ao seu estado natal. Nísia foi uma brasileira das mais importantes.

Dionísia Gonçalves Pinto nasceu no Sítio Floresta, município de Papari (hoje Nísia Floresta), no Rio Grande do Norte, em 1810. Do pai português Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, herdou o prenome e o apreço pelo conhecimento. Da mãe brasileira, Dona Antônia Clara Freire, recebeu afeição e apoio.

No ano do nascimento de Dionísia, o lar da família foi visitado pelo inglês Henry Koster, que em seu livro intitulado "Travels in Brazil", de 1816, registrou sua surpresa ao constatar a presença da esposa do dono da casa durante a sua estada, quando das reuniões. Tal fato tão incomum na época dá mostras de que a família de Nísia não se apegava muito às tradições, o que deve ter norteado sua vida e seu trabalho.

Ainda menina, entre os 13 e os 14 anos, Nísia casou-se com um influente proprietário da região a quem abandonou, voltando à casa dos pais, em menos de um ano. Em seguida a família mudou-se para Pernambuco, onde a escritora enamorou-se e passou a morar com o acadêmico de Direito Manoel Augusto de Farias Rocha. Ali publicou seus primeiros artigos, discorrendo sobre a condição feminina, no Jornal Espelho das Brasileiras.

A autora já utilizava então o pseudônimo Nísia Floresta Brasileira Augusta, usando o diminutivo do seu nome de batismo e enaltecendo o sítio onde nasceu, o Brasil e o segundo marido de quem não pôde usar o sobrenome, em face da não oficialização da união.

Em Olinda o pai foi assassinado e Nísia seguiu para o Rio Grande do Sul, onde se estabeleceu junto com marido, os dois filhos, a mãe e as duas irmãs. O advento da Revolução Farroupilha levou a família a deixar o Sul em direção ao Rio de Janeiro.

Na corte, Nísia, já viúva, dedicou-se à educação fundando dois colégios, visando principalmente à preparação intelectual de meninas.
Foi no Rio de Janeiro que publicou Conselhos à Minha Filha, assinando como F.Augusta Brasileira; também colaborou com o Jornal do Brasil e o Jornal do Comércio, entre outras publicações.

Nísia Floresta tinha idéias e comportamentos avançados.Era abolicionista,republicana, indianista e, principalmente, feminista, quando essa expressão ainda nem existia. Talvez, a sua saída do país tenha ocorrido devido a sua postura insurgente contra ao status quo da época. Não havia espaço no Brasil da primeira metade do século XIX para uma mulher sozinha, expressando-se a favor da abolição dos escravos, da proclamação da república e ainda requisitando igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Do livro "Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens", de 1832, foi pinçado o seguinte trecho que ilustra o inconformismo de Nísia Floresta quanto à situação das mulheres na época: "Flutuando como barco sem rumo ao sabor do vento neste mar borrascoso que se chama mundo, a mulher foi até aqui conduzida segundo o egoísmo, o interesse pessoal, predominante nos homens de todas as nações".

Imagine-se o impacto do texto acima numa sociedade absolutamente patriarcal, na qual as mulheres tinham a função primordial de agradar aos homens aos quais estivessem ligadas.

A ousadia de Nísia Floresta custou-lhe também o ostracismo nos registros culturais do Brasil por um longo período. Resgatou sua vida e a sua obra, o trabalho de Constância Lima Duarte, editado em 1995, na qual a autora esclarece, por exemplo, que, Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens - primeiro livro publicado pela escritora - trata-se de uma tradução livre do livro da inglesa Mary Wollstonecraft.

Segundo Constância Lima Duarte, Nísia criou uma obra nova a partir do texto da feminista inglesa, enfocando a situação da mulher no Brasil, os preconceitos e dificuldades enfrentados, ao mesmo tempo em que desmistificou a supremacia masculina.

A coragem e o pioneirismo de Nísia Floresta levou-a, com os dois filhos, à França, capital do Iluminismo, justamente no ano seguinte ao da revolução que derrubou definitivamente a monarquia naquele país. A pensadora potiguar viajou por toda a Europa, mas foi na França que se estabeleceu e criou laços. Nísia Floresta estudou, escreveu e privou do convívio dos maiores intelectuais europeus da época. Conviveu com Alexandre Dumas, Victor Hugo, Georges Sand e Augusto Comte.

De Comte, idealizador do Positivismo, foi uma admiradora e uma amiga. Sendo, inclusive, uma das quatro mulheres que ajudou a carregar o esquife do pensador. Todavia, ao que se sabe, Nísia nunca foi adepta da corrente positivista.

Há, ainda, muito que dizer sobre essa mulher extraordinária que nasceu em Papari e morreu em Rouen, na França, em 1875. Nísia Floresta Brasileira Augusta lutou em várias frentes e, mais do que todos os adjetivos aqui citados, ela foi, acima de tudo, humanista, e abraçou todas as causas que acreditava que pudessem trazer mais justiça social às mulheres e aos homens.

2 comentários:

Halem Souza (Quelemém) disse...

Evelyne, olha que coincidência: estava lendo alguns materiais para compor um texto sobre o pensamento educacional brasileiro e um dos artigos que selecionei foi "A ficção didática de Nísia Floresta", justamente de Constância Lima Duarte e que está no livro "500 anos de Educação no Brasil". Depois da leitura, comento um pouco mais. Um abraço.

Evelyne Furtado disse...

Essas coincidências são interesantes, Halem! O Trabalho de Constância Lima Duarte é importantíssimo na redescoberta de Nisia Floresta`.
Obrigada pela visita.
Abraço!